Oferecendo muito mais para seu bebê

O que mais posso oferecer para o bom desenvolvimento de meu bebê?
Sugestões de cultivo na época do desmame e ao longo de toda a infância

Para as mães que desejam sair do automático, vamos pensar um pouco em como propiciar experiências para que o bebê ou a criança jovem, sintam-se seguras, amadas e ainda tenham uma boa “autopercepção” e  autoconsciência.

Para isso, Karl König (referência abaixo) coloca que esses aspectos da vida da criança dependem de nossa atuação nos primeiros três anos de vida.

Caso considere que chegou a hora do desmame, agir no sentido de que seu filho perceba o mundo ao redor e você, consequentemente, possa atuar de maneira ativa nesses processos, será de grande valia para ele.

Quando uma criança sente um cheiro que considera gostoso ou escuta um som familiar, ela reage com todo o corpo: pula, agita as mãozinhas, dança. Portanto, o corpo inteiro recebe estímulos pelos sentidos, reagindo de maneira estruturadora.

Então, como cultivar os sentidos e as experiências que eles propiciam?

Vamos dar uma espiada nos doze sentidos, e nas possibilidades que a observação dos mesmos nos propicia.

Acredito que esses aspectos sejam a chave de ouro que poderá transformar o sentido da vida de muitas famílias e futuros adultos.

O sentido do tato

Passando nove meses abrigada pelas paredes do útero, a criança perde essa referência ao nascer. É através do toque das mãos e da textura agradável dos tecidos naturais das roupas e brinquedos que ela revê esse tempo em que esteve “contida”, e confortável. Tanto é assim, que quando nasce um bebê prematuro, (em outras palavras, imaturo para o mundo), basta colocarmos um tecido de algodão sobre seu corpinho, para que os movimentos de braços e perninhas agitando-se pelos ares cessem. Movimentos que procuram os limites das paredes do útero.

Com essa atitude, o bebê passa a confiar mais, fica mais tranquilo.
O toque deve, portanto, ser repleto de carinho, intenção, e não ser um ato automático. Toda a relação com a criança deve ser respeitosa, proveniente de uma real dedicação interior dos adultos.

Assim como a presença é essencial, o deixar e o saber soltar, também são importantes. Incentivar dependência de nenhuma espécie é saudável.

O sentido vital

O sentido vital  representa um desafio para todos nós, mas o grande estímulo é o que ele significa para a criança.

Os ritmos do adormecer, do acordar, das refeições, trazem aconchego e a noção de uma vida harmoniosa para a bebê.

Alegria às refeições, ambiente arrumado com carinho, colorido, de forma harmoniosa. Televisão, vídeos e músicas em alto volume não combinam com a proposta.

Do outro lado da balança, as brigas, a agitação, a pressa, o viver assustado, nervoso, apreensivo, manifestações de descontentamento, tristeza e o amedrontamento não colaboram com o sentido vital das crianças.

O sentido do movimento próprio

Parece desnecessário dizer isso mas, por incrível que pareça, não é.

Para muitas mães torna-se difícil deixar a criança perceber seus próprios movimentos, vivenciar um sentimento de liberdade e autodomínio, como resultado de sua atitude na realização de movimentos.

Permitir que as crianças tornem-se fisicamente ativas, contar estórias com encenação e movimentos dos quais a criança possa participar, enriquecer a linguagem com sons que denotem movimentos, estimulam essa vivência nos pequenos.  A arrumação do quarto e da casa também pode propiciar a brincadeira e o movimento, pelo acesso facilitado.

As sequências de movimentos como no varrer o chão com uma pequena vassoura, passar a roupa de brincadeirinha, brincadeiras de roda, ajudar a dobrar roupas e lavar pequenos objetos, vivificam os movimentos das crianças.

Isso tudo vai de encontro com a falta de movimento, com os movimentos automáticos nas brincadeiras e jogos eletrônicos e com as proibições cercadas de medo e ameaças.

É importante lembrar aqui, que essas atividades devem ocorrer por sugestão do adulto, que deverá sempre ser um facilitador.

 

O sentido do equilíbrio

A vivência do equilíbrio tras em si a noção do movimento e da pausa, o que refletirá no adulto como sugestão de alinhamento interior.

Para que os pais lidem com esse tema na infância da criança através de brincadeiras de balançar, pular, saltar, terá que se confrontar com a calma e a segurança necessárias para apoiá-lo nesse sentido.

O contrário da vivência do sentido do equilíbrio é a pobreza de movimentos, a agitação interior, a depressão, a inquietação e vida entediada, a falta de expressão da alegria na fala e no viver.

O sentido do olfato

O cultivo do olfato desde através das ervas aromáticas nos alimentos, até os óleos essenciais no ambiente, o cheiro do sol nas roupas, os ambientes arejados e bem higienizados propiciam uma vivência inesquecível.

Tanto é assim que nos lembramos dos cheiros e perfumes de nosso jardim de infância ou do aroma da comida da vovó. Da mesma maneira, alguns cheiros nos remetem a situações de angústia ou tristeza.

 

O sentido do paladar

Costumo dizer que despertar para o sentido do paladar desperta para a vida, uma vida de “bom gosto”.

A criança que recebe a influência de pais que cuidam desse sentido, passam a ser adolescentes que usam os alimentos para os encontros, quando serão o foco da atenção dos amigos na cozinha,  em torno da amizade e da mesa, um sentido de doação e  compartilhamento.

Esses adolescentes não reconhecem fastfood como alimento, e têm maior tendência a não gostar de comidas  muito artificiais.

O cultivo do sentido do paladar pelos pais gera na criança um sentimento de respeito e admiração pela natureza, aspecto que levará consigo por toda a vida na conservação da estética e no “bom gosto” no trato com as pessoas e o ambiente.

O sentido da visão

Através do alimento visual bem cuidado, a criança passa a ter a impressão de um mundo interno por meio das cores e dos arranjos que são feitos à sua volta. Desde a combinação das roupas, através das cores e natureza dos tecidos (tato) até a disposição dos móveis, a criança sente conforto, bem estar e harmonia.

Levar a diversidade das cores da natureza imprime uma admiração e respeito na alma da criança desde que o adulto também demonstre alegria e entusiasmo verdadeiramente.

Por outro lado, as imagens agressivas, as cores berrantes, a falta de sentido, a tristeza, a falta de interesse, de vibração, a disposição sombria, o excesso de televisão e jogos, os brinquedos de cores e brilho agressivo, o excesso de luzes ofuscam e são nocivos à criança.

O sentido térmico

Esse sentido vai além das variações de temperatura, às quais devemos estar atentos para manter o corpo calórico das crianças.

O sentido térmico também implica na repercussão da atmosfera que geramos, desde a frieza e a indiferença, até a cordialidade exagerada e artificial.

O sentido térmico passa, portanto, pela maneira com que lidamos com a criança diariamente, com a qualidade da atenção que despendemos nas atividades do dia e da noite.

A superficialidade, os gritos, o exagero na expressão, se contrapõem à natureza tranquila, admirada e religiosa com que a criança observa o mundo.

A observação do sentido térmico pelos adultos, repercute na criança em forma de atenção, tranquilidade, respeito e amorosidade, por tudo e todos que o cercam. O sentido térmico dá uma sensação de abrigo e ordem.

É um exercício para os adultos, pois demanda uma disposição atenta, ou seja, intenção, presença no ato da relação. Experimentar essa atitude em forma de exercício trará infinitas repercussões na alma e na saúde do pais.

O sentido da audição

As vivências sonoras também conduzem à exploração de caminhos do interior do ser humano.

Por isso, a fala com a criança deve ter uma entonação, que transmita emoção e alimente. A voz deve vir de dentro.

Contar estórias de forma não automática, que fuja da simples leitura de um texto. Imitar os sons de animais e sons  que dêem a ideia de movimento despertam o interesse e divertem as crianças.

Usar as pausas na fala e contação de estórias, e emoção da voz nas cantigas. Essa “calorosidade” se contrapõe ao falatório sem sentido, às agressões do automatismo e da superficialidade.

Acostumar a criança à variedade de sons da natureza, desde os sons provenientes dos materiais à “fala” dos animais.

A expressão dessas qualidades na fala pelos adultos tem igualmente poder terapêutico para os mesmos.

 

O sentido da palavra ou da linguagem

Esse sentido está relacionado com os temas da veracidade e autenticidade. Através dele a criança começa a firmar uma imagem de si.

Terão impacto as atitudes dos adultos que a cercam através de sua percepção dos gestos, linguagem corporal, e relações entre a manifestação e a veracidade. Influenciarão a percepção de que a expressão de um gesto ou uma fala, represente ou não a verdade.

A falta de emoção na expressão, que impede a criança de sentir os pais, a falta de cordialidade, sinais de rejeição, a frieza, a indiferença, a falta de atenção, a inverdade, são os aspectos negativos dessa influência.

 

O sentido do pensamento

Propicia a compreensão do sentido de uma ordem, concatenação de ideias. Vivenciar as relações de modo sensato, sem o sentimento de agressão ou desafio permanente, conseguindo com calma escutar e ordenar os pensamentos, agindo de forma coerente com a escuta.

O contraponto seria um pensamento confuso, relações deturpadas, associações sem profundidade.

A maioria das pessoas que se encontram num aspecto negativo desse sentido, não percebe e não admite o emaranhado em que se encontra e sua influência sobre a criança.

A natureza do pensamento tem raízes profundas na estória individual, que mesmo assim,  pode dar uma significativa guinada a partir de atitude reflexiva.

O sentido do eu

Esse sentido tem uma abrangência muito grande sobre as escolhas e características do indivíduo enquanto adulto.

A maneira como os adultos estão presentes e atuam na vida da criança, manifesta a capacidade que terá de perceber o outro, se com amor, profundidade, atenção e interesse verdadeiro, através das brincadeiras, dos valores expressos nas atividades e passeios, do materialismo e do excesso de mídias eletrônicas. A chave é manifestar interesse e expressar amor.

Fala-se, portanto, na percepção e cultivo do eu próprio e do eu alheio.

A observação dos Doze Sentidos é para nós, adultos, um desafio e um exercício constante, com maravilhosas repercussões em nossa saúde física e emocional, bem como daqueles com os quais convivemos.

 

Referências :

Consultório pediátrico, Michaela Glöckler

Os três primeiros anos da Criança, Karl König.

 





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